PSICÓLOGAS GRATUITAS PARA MULHERES OPERÁRIAS NA PORTA DA FÁBRICA DURANTE A PANDEMIA

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Foto: Divulgação

O projeto Trilhando Novos Rumos começou os atendimentos gratuitos com psicólogas e arteterapeutas atendendo mulheres operárias fabris de Vila Velha. Uma realização da equipe do Instituto Casa Lilás com apoio da Secretaria Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo por meio do Edital Boas Práticas em Direitos Humanos. Os atendimentos visam atuar nas diversas violências de gênero (verbal, física, assédio, patrimonial…) nos ambientes doméstico e profissional com atendimento humanizado e promover o bem estar das mulheres trabalhadoras na pandemia. A iniciativa inédita vai atender no contraturno de trabalho das mulheres na sede do coletivo que é liderado por mulheres e seguindo os protocolos previstos na pandemia.

Fabiane Gomes Lima, 46 anos, relatou que a saúde emocional reflete no trabalho e em casa, “é muito importante esse projeto para nós, trabalhamos em extensas jornadas, nunca tivemos acesso à psicóloga e nem teríamos como ir até elas e nem pagar. Na pandemia muitas adoeceram emocionalmente, estão com depressão. Na fábrica, lidamos no dia a dia com a maioria de colegas e chefes homens que não possuem orientação de como lidar com as mulheres. Fazemos o mesmo trabalho, mas ainda existe muita discriminação com nós mulheres, isso reflete na forma de falar e nos tratar. Com certeza a saúde emocional reflete no ambiente do trabalho e em casa”, falou a trabalhadora.

O dia 8 de março sempre esteve associado ao contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e de trabalho. As manifestações em todo o mundo, uniram os movimentos das mulheres operárias que lutavam pelos direitos sociais aos movimentos sufragistas que lutavam pelos direitos políticos. O livro “Trilhas: a construção da identidade e a memória social dos trabalhadores em alimentação do Espírito Santo” com narrativas protagonizadoras das mulheres operárias capixabas, lançado em março de 2020 na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pela pesquisadora de gênero Déborah Sathler, baseou o projeto Trilhando Novos Rumos, que leva saúde mental gratuita para as mulheres trabalhadoras fabris na pandemia.

A autora da pesquisa com o grupo de mulheres trabalhadoras operárias capixabas, Déborah Sather, ressaltou a importância desse olhar para a diversidade presente nos grupos de mulheres: “Cada mulher traz sua vivência de grupos, não podemos generalizar a mulher em sua gama de diversidades, a condição da mulher operária que trabalha em ambientes majoritariamente masculinos possui especificidades, muitas adoeceram, perderam seus empregos com doenças ocupacionais e psicossomáticas”, falou a pesquisadora de gênero e mestra em Humanidades.

“A maioria dos empregadores nas indústrias da alimentação perpetuam a discriminação contra a mulher nas contratações, empregando menos e nas oportunidades de crescimento profissional. Há grandes empresas que para ter uma pauta positiva, anunciam que como objetivo manter a igualdade entre mulheres e homens, porém, a afirmação não é verdadeira, quando acompanhamos que a empresa contrata menos mulheres, mantendo um quadro de funcionários com menos de 30% ou muitas vezes nenhuma mulher em seu quadro. Essa situação vivida por nós mulheres, gera transtornos psicológicos nem sempre observados, é preciso a escuta, a mulher precisa estar bem emocionalmente, ser ouvida e se ouvir”, falou Linda Morais, líder do coletivo de mulheres operárias capixabas em alimentação.

Segundo a Revista Brasileira de Enfermagem 2014 as principais causas da violências são: o machismo, as condições econômicas, o alcoolismo e os antecedentes familiares de violência. Uma pesquisa do Think Eva e do Linkedin de 2020 apontou que 47% das mulheres já sofreram assédio no ambiente de trabalho. “A violência contra a mulher é reconhecida mundialmente como problema de saúde pública, configura problemas de ordem física, psíquica, familiar, social, econômica e laboral para as mulheres, com perda de produtividade, diminuição do desempenho no trabalho, absenteísmo laboral e até a perda de emprego para muitas mulheres, o que configura um problema grave para a mulher trabalhadora. Ocasiona sofrimento psíquico como depressão, ansiedade, fobias, transtorno pós-traumático, problemas de saúde psicossomáticos, uso abusivo de drogas psicoativas, álcool e aumento nas taxas de suicídio”, explicou a psicóloga do projeto Nice Nicchio. A equipe do projeto Trilhando Novo Rumos possui experiência em projetos ligados a grupos diversos de mulheres, mulheres negras, socialmente vulneráveis e de comunidades tradicionais.

Mais informações Déborah Sathler (27) 99225-9735

ferreirasathler@gmail.com

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