São Mateus e São Paulo: ”cidades irmãs” que representam o Brasil que deu certo e o que deu errado

Hoje, a metropolitana São Paulo, comemora 467 anos de fundação.

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Maciel Aguiar é escritor e historiador

A metropolitana São Paulo — maior cidade da América do Sul —, comemora 467 anos de fundação como o melhor exemplo do que acertamos nos séculos de construção de nossa bela e extraordinária aventura chamada civilização brasileira.

E o que a celebração da monumental, progressista e poderosa capital dos paulistanos tem em comum com a quase quinhentista, porém desprezada, abandonada e pobre Cidade de São Mateus, no Norte do Estado do Espírito Santo?

Tem tudo, ou melhor, são “cidades irmãs”, pois ambas foram fundadas pelo padre José de Anchieta, o jesuíta que se afamou por virtudes peregrinas de santo e andou pelas praias do Brasil — conhecidas como “Estrada Geral” —, escrevendo nas areias brancas e finas poemas e orações.

Em 25 de janeiro de 1554, o “Apóstolo do Novo Mundo” — acompanhado do padre Manoel da Nóbrega —, da Companhia de Jesus, celebrou, no ”Páteo do Collégio”, a primeira missa na Aldeia de Piratininga e a denominou de São Paulo, em homenagem à “conversão de Paulo”, um dos pilares da difusão da fé cristã.

E, em 21 de setembro de 1596, o mesmo padre Anchieta celebrou a primeira missa nas barrancas do rio que o gentio chamou Kiri-Kerê e as batizou de San Matheus — por ser o dia do evangelista cobrador de impostos —, que, depois, a Aldeia recebeu o nome de Vila Nova do Rio de San Matheus e, em 13 de abril de 1848, ganhou o fórum de Cidade.

Então, a grandiosa, cosmopolita e pujante São Paulo — fundada pelo mesmo fundador da abandonada, esquecida e sofrida São Mateus — teve um destino oposto ao de sua, digamos, ”irmã mais velha”, embora ambas tivessem equivalentes importâncias na formação social, política e econômica do Brasil.

A capixaba foi colonizada dez anos antes, em 1544, quando um navio desarvorado, fugindo dos ataques à sede da Capitania do Espírito Santo, com destino à Capitania de Porto Seguro, entrou pelo lendário rio Kiri-Kerê — em tupi significa dorminhoco —, e, no Porto, em ”sítio convidativo”, seus tripulantes desembarcaram, assentaram vivência e perpetuaram a moradia.

A aparente tranquilidade dos moradores da Aldeia do Kiri-Kerê era um indício de que os Tupinambá estavam se aliando a seus maiores inimigos — os ferozes, temidos e antropófagos Aymoré ou botocudos —, para a maior resistência nativa nos primeiros 100 anos do Descobrimento do Brasil.

E um segundo fato uniu, ao menos literariamente, São Mateus, São Paulo e o jesuíta José de Anchieta, e este foi determinante para a vitória dos colonizadores portugueses, constando, oficialmente, como um dos principais acontecimentos da História do Brasil:

No final de 1557, os habitantes da Aldeia do Kiri-Kerê pediram ajuda a Mem de Sá, devido aos frequentes ataques dos índios, e o III Governador Geral enviou o seu filho, Fernão de Sá, com 21 anos, comandando uma esquadra composta de 4 galés, 2 caravelas e 200 soldados, para ”combater os que reclamavam o domínio das terras”.

Os Tupinambá e Aymoré esqueceram as divergências e, em estratégia de guerra, deixaram a armada do III Governo Geral do Brasil ultrapassar as duas primeiras fortificações e, na terceira, na confluência dos rios Maririki e Kiri-Kerê, atacaram pela retaguarda, matando Fernão de Sá com uma flechada no pescoço, e, também, morreram dois filhos de Diogo Álvares Correia, o Caramuru.

Mem de Sá, consternado, escreveu uma comovente carta à Coroa Portuguesa, mas o sentimento de vingança o fez mandar o sobrinho, Baltazar de Sá, com a “maior esquadra de guerra” formada, até então, para a ”Batalha do Cricaré”, quando foram mortos milhares de índios, dentre velhos, mulheres e crianças, e o episódio ficou conhecido como ”Primeiro genocídio brasileiro”.

Vivendo em São Paulo, o padre José de Anchieta recolheu as informações sobre o sangrento combate e escreveu o primeiro poema épico das Américas — ”De Gestis Mendi de Saa” —, que o fez visitar o local dos dramáticos acontecimentos.

Existe, ainda, um terceiro fato que une as cidades de São Mateus e São Paulo, e este explica como uma parcela da sociedade brasileira vivenciou e fomentou o nosso processo civilizatório ao longo dos séculos, e a outra parte se converteu em um símbolo do atraso de nossa colonização:

Após a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, proibir o tráfico de escravos da África para o Brasil e, depois, a Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871, praticamente acabar com as fazendas de reprodução de negros no município, algumas poderosas famílias coroadas de São Mateus migraram para São Paulo e outras capitais brasileiras, onde se estabeleceram na indústria, além das atividades liberais, e no comércio.

Dentre os senhores dessas famílias coroadas, se notabilizaram os Faria Lima, os Abreu Sodré, os Santos Neves, os Oliveira Santos, os Aguirre, etc. como prósperos e poderosos, além disso, quatro deles foram governadores do Espírito Santo e um governador de São Paulo, onde os seus nomes estão nas principais ruas, avenidas e viadutos da metrópole paulistana.

Ao contrário, as famílias que permaneceram em São Mateus empobreceram com a cidade e alguns senhores ainda mantêm os resquícios do sistema escravocrata e o mais importante símbolo da colonização — o Sítio Histórico do Porto — foi abandonado pelo Governo do Estado do Espírito Santo e negligenciado pela Prefeitura Municipal, projetando para a memória nacional um dolorido retrato de um Brasil que deu errado.

Parabéns à metropolitana, exuberante, progressista e rica Cidade de São Paulo, ”irmã mais nova” da — lamentavelmente — sofrida, abandonada, desprezada e mal administrada Cidade de São Mateus! Não obstante isso, as duas possuem uma imensurável certeza, receberam a benção do padre José de Anchieta, o Santo que melhor interpretou o Brasil!

Maciel de Aguiar
Escritor das barrancas do lendário rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê.

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