LIVRO RESGATA MEMÓRIA DA CULTURA DO POVO NEGRO CAPIXABA E SERÁ ENTREGUE PARA ALUNOS DA REDE PÚBLICA

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Foto Romildo Neves

O livro “30 anos da gravação de Madalena do Jucu: perspectivas históricas e novos alcances”, que realizou escuta humanizada com os mestres e matriarcas do congo, da jornalista capixaba e mestra em Culturas, Déborah Sathler, será entregue para os alunos da rede pública. Serão distribuídos 1,3 mil exemplares para alunos das escolas estaduais, municipais e federal com o objetivo de estimular a leitura e a formação dos professores em cumprimento a lei 10.639 de obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio.

As entregas acontecem na Semana da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, às 10 horas no Ifes de Cariacica e no dia 21 de novembro, quinta-feira, às 9h30, no Auditório da Secretaria Estadual de Educação (Sedu), que fica em Santa Lúcia, Vitória. O livro teve apoio da Secretaria Estadual de Cultura do Espírito Santo e foi realizado com recurso do FUNCULTURA.

A autora visitou escolas que realizam o ensino da cultura do congo em Vitória. Os alunos do ensino fundamental do Cmei Jacyntha Simões de Goiabeiras do projeto “Instrumentarte” do Circuito Cultural da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Vitória vão participar da entrega na quinta-feira, dia 21 de novembro, no auditório da Sedu. “Trabalho com história oral desde 2015, quando finalizei meu mestrado em Humanidades, Culturas e Artes, as narrativas desse projeto entregaram registros valiosos para quem se interessa por história, memória cultural, para quem produz economia cultural criativa, políticas públicas culturais, para pesquisadores, professores e admiradores da cultura e da música do Espírito Santo e do Brasil. Cada agente cultural que entrevistei, cada mestre, matriarca, artista que colaborou com seu depoimento apontou seus sonhos e desejos. Entendo cultura como um modo de ler a vida, de entender o mundo, e o conguista possui uma sensibilidade, um modo cativante, espontâneo, um espírito livre. Foram encontros com pessoas cujas frontes são tingidas de arte, da nossa arte que vêm do mar, do sagrado negro que é São Benedito. No campo de pesquisa encontrei outras questões como a intolerância racial/ religiosa com as comunidades musicais do congo. Nas rodas de conversas pude ouvir as percepções deles de como a gravação da toada de congo em samba ‘Madalena do Jucu’, abriu novas possibilidades dentro da cultura do congo que já nasceu híbrida e que com a gravação, sacralizou essa negociação entre as identidades culturais negras, do congo e do samba. Não foi à toa que o interiorano Martinho da Vila se apaixonou pelo som das vilas, dos mares e das fazendas que é o congo. Ele nasceu ouvindo calango em Duas Barras, uma manifestação negra do interior fluminense. Resgatei como ele aportou no Espírito Santo, por meio de um convite da então estudante da Universidade Federal do Espírito Santo, a filósofa Viviane Mosé. Todos os personagens desse enlace histórico para a música brasileira deixaram registrados suas memórias e apontaram novas ideias e desafios na contemporaneidade. Esse é o grande lance do livro, quem vivencia a cultura do congo, detém o saber, o fazer e precisa ter voz. Precisamos deixar de ser detentores do conhecimento e ouvirmos mais, principalmente os integrantes das culturas tradicionais, eles têm ideias interessantes de projetos, ações e a expertise da realidade”, falou Déborah Sathler.

As tradições africanas presentes na cultura do congo capixaba e as similaridades musicais foram analisadas pelo músico, compositor e percussionista Tunico da Vila, residente desde 2016 em Vitória e que possui vivência musical em países africanos: “A cultura, quanto mais ouvida, mais é compreendida, assimilada, foi assim que fiz com as comunidades africanas que pesquisei para poder tocar diversos gêneros musicais, como o semba, o funaná e a morna. Esse livro é um registro importante da oralidade e para minimizar preconceitos, principalmente entre os mais jovens. Esse projeto me deu uma oportunidade única como artista de ter mais contato com a cultura do congo, nas rodas de conversas cantamos, ouvi histórias de vida e toadas que desconhecia. Esse registro é muito importante para a cultura hoje, mas principalmente para as futuras gerações de capixabas, brasileiros, músicos, pesquisadores, para o pertencer, o reconhecer e o partilhar dessas tradições”.

Informações para a imprensa:

Déborah Sathler

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