Agrotóxicos matam quase 300 no ES e provoca nove mil casos de intoxicações

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O Espírito Santo registrou 292 mortes por agrotóxicos agrícolas. Isso corresponde a cerca de 10% dos óbitos por esses produtos no Brasil, de acordo com dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo Cruz. Desde o ano de 1999 foram pelo menos 9.028 casos de intoxicação por agrotóxicos no Estado (não contabilizados os anos de 2008, 2013 e 2014). Mas a realidade pode ser pior: a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que para cada caso de intoxicação confirmado, outros 50 não sejam notificados.

O professor Wagner Barbosa, do Departamento de Farmácia e Nutrição da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) afirma que há uma discrepância muito grande quando se faz a relação da área agricultável do Espírito Santo e o número de intoxicações e óbitos em comparação a outros estados da federação.

“Proporcionalmente esse número é muito absurdo. Quase 10% de todas as notificações e óbitos registrados no Brasil por intoxicação são no Espírito Santo. Esses números mostram que nossa população está muito vulnerável e que precisamos ter uma política pública de governo para inverter essa lógica, porque o agricultor é o ente mais frágil da corrente”, explica o professor.

Ele ainda comenta sobre recente liberação de diversos agrotóxicos no Brasil, inclusive que são altamente tóxicos, e tendem a impactar de forma agressiva a saúde pública. “Observamos que só nesse ultimo mês de setembro foram liberados muitos agrotóxicos. Neste ano foram mais de 350 agrotóxicos com princípios ativos diferentes, muitos altamente tóxicos. É uma questão de governo junto com lobby das bancadas ruralistas. Há interesse político na aprovação desses venenos. As empresas que produzem os venenos são as mesmas que produzem sementes”.

Extremamente tóxicas
Coordenador do doutorado em Ciências Farmacêuticas da Universidade Vila Velha (UVV), Rodrigo Scherer afirma que cerca de 50 tipos de moléculas de agrotóxicos liberados no Brasil são proibidos em outros países, devido a estudos comprovando sua toxicidade.

“São mais de 600 moléculas de agrotóxicos utilizadas regularmente no Brasil, mas cerca de 50 são proibidas em outros países. Dessas, 14 estão na lista de moléculas extremamente tóxicas, proibidas em dezenas de países da União Europeia. Aqui são utilizadas e têm fácil acesso. Estão aqui há muitos anos e o setor da agricultura acaba ficando dependente desses produtos”, explica o professor.

42% das intoxicações foram tentativas de suicídio
Quando a pessoa é exposta a uma grande quantidade de agrotóxicos em pouco tempo, e os crônicos, que são de longo prazo, em pequenas doses pode sofrer desde dor de cabeça, até uma depressão e até morrer. “É risco de uma série de danos, como depressão, câncer em alguns tipos de órgãos, problemas no sistema reprodutivo, dores de cabeça a longo prazo, por exemplo”, afirma o doutor em Farmácia, Rodrigo Scherer.

Os últimos dados destrinchados do Sinitox datam do ano de 2016 e mostraram que dos 837 casos de intoxicação por agrotóxicos agrícolas no Espírito Santo, 359 (ou 42%) configuraram-se em tentativas de suicídio.  “Esse é um dos efeitos colaterais bem típicos de agrotóxicos. Nos aplicadores que usam o sistema manual o índice de depressão é muito alto. Essa depressão pode levar ao suicídio, juntamente com problemas de infertilidade e impotência sexual também relacionadas ao agrotóxico. Somando, pode levar ao suicídio”, elucida Scherer.

O professor Wagner Barbosa explica que, além do impacto na saúde humana e no meio ambiente, os agrotóxicos impactam também a economia do Brasil, elevando os gastos com saúde pública. “Pesquisa recente no Brasil apontou que para cada um dólar gasto com agrotóxico no país, gasta-se do SUS (Sistema Único de Saúde) 1,28 centavos de dólar para cuidar de casos apenas de intoxicação aguda. O SUS que paga isso. O Estado brasileiro é quem paga a conta, enquanto empresas produtoras ficam só com o lucro. Outro impacto econômico nessa área é que as empresas de agrotóxicos possuem um lobby muito forte e conseguem isenções fiscais e tributárias altíssimas, dependendo de cada Estado”.

Com Informação: ESHoje

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