Sul-africanos ainda confiam em sigla de Mandela, diz viúva de ativista

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Para a viúva de Nelson Mandela e uma das principais ativistas pelos direitos humanos do continente africano, Graça Machel, “a África do Sul entrou em um período muito importante”. Ela se refere à chegada à presidência do país do ex-sindicalista Cyril Ramaphosa, que pertence ao CNA (Congresso Nacional Africano), partido que foi liderado por Mandela.

Vice de Jacob Zuma, Ramaphosa assumiu o poder em fevereiro do ano passado depois da renúncia de Zuma, enfraquecido por uma sucessão de escândalos de corrupção. No pleito do último dia 8, o CNA obteve mais de 9 milhões de votos, o que garantiu à legenda a maioria absoluta dos lugares do Parlamento. Assim, Ramaphosa se mantém no cargo.

A moçambicana de 73 anos abre a série Fronteiras do Pensamento de 2019, com uma conferência nesta segunda-feira (13) em Porto Alegre e outra na quarta (15) em São Paulo.

O otimismo da ativista com a África do Sul se baseia em dois pontos principais. Segundo ela, Ramaphosa criou comissões lideradas por juízes para investigar os casos de corrupção das gestões do seu antecessor –Zuma presidiu o país entre 2009 e 2018. Para Machel, a iniciativa demonstra não haver intenção de ocultar atos irregulares do governo do país e das empresas estatais.

O segundo aspecto diz respeito às questões sociais e econômicas da África do Sul. “Ramaphosa está promovendo políticas vigorosas de luta contra a desigualdade e o desemprego”, afirma à Folha.

De acordo com Machel, Mandela havia manifestado entre integrantes do partido o desejo de que Ramaphosa, um dia, chegasse à Presidência.

Madiba, como ela se refere ao Nobel da Paz de 1993, admirava o estilo de liderança de Ramaphosa, que foi secretário-geral do CNA. Ao obter 57,5% dos votos nesta eleição, o CNA teve sua pior performance desde que chegou ao poder, em 1994 –pleito que marcou o fim do apartheid.

Machel discorda, contudo, dos analistas que apontam um processo expressivo de desgaste do partido. “Em 1994, o CNA era um movimento de libertação. Tinha índices de popularidade sensacionais. Mas aquele era um momento histórico excepcional”, afirma ela.

“De lá pra cá, sendo um partido que está a governar, há o escrutínio do público. O CNA tem que gerir as expectativas de milhões de sul-africanos, está sujeito a um desgaste, mas esse é um movimento normal. A maioria dos sul-africanos ainda depositam sua confiança no CNA como o partido capaz de oferecer respostas às grandes aspirações”, complementa.

Machel foi primeira-dama em dois países. Antes de Mandela, foi casada com Samora Machel, presidente de Moçambique entre 1975 e 1986, quando morreu em um acidente de avião. Ela se casou com Mandela em 1988.

Hoje Machel vive entre Joanesburgo, onde comanda a organização social Graça Machel Trust, e Maputo, onde está à frente do Fundo para o Desenvolvimento da Comunidade.

A entrevista muda de tom quando ela fala do seus país natal. Machel trata a passagem do ciclone Idai, que atingiu a cidade de Beira, na região central do país, em março, como a maior tragédia natural da história de Moçambique.

Não bastasse a devastação provocada pelo Idai, que deixou mais de mil mortos, o país foi atingido por um segundo ciclone, o Kenneth, na região norte, em abril. Nesse caso, mais de 40 pessoas morreram.

Enfatiza que esses números tendem a crescer. “Há centenas de pessoas soterradas e arrastadas pelas águas que ainda não foram encontradas.”

Mas Machel também traz boas novas de seu país natal. Refere-se à seara política. Exalta a representatividade feminina no Parlamento de Moçambique, em torno de 40%.

“Em relação à presença das mulheres nos órgãos de decisão, não há dúvida de que os países africanos estão à frente dos EUA e da Europa, com exceção dos escandinavos.”

Ela cita o Parlamento de Ruanda, em que a representatividade feminina supera 60%.

Na Etiópia, segundo Machel, metade dos cargos do governo federal são preenchidos por mulheres. Também tem índices elevados de promoção das mulheres. A Namíbia tem 46% de mulheres no Parlamento.

DA REDAÇÃO DO JORNAL A ILHA | COM INFORMAÇÕES TRIBUNA ONLINE

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